Domingo, 13 de Setembro de 2009

O que há em mim......



Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

4 leituras:

  1. Ao reler no seu post o "Cansaço" do Poeta, recordei-me destes versos para contrabalançar esse cansaço, talvez não sejam os mais adequados, mas pelo menos dão-nos um certo ânimo...


    Alegria

    De passadas tristezas, desenganos
    amarguras colhidas em trinta anos,
    de velhas ilusões,
    de pequenas traições
    que achei no meu caminho...,
    de cada injusto mal, de cada espinho
    que me deixou no peito a nódoa escura

    duma nova amargura...
    De cada crueldade
    que pôs de luto a minha mocidade...
    De cada injusta pena
    que um dia envenenou e ainda envenena
    a minha alma que foi tranquila e forte...
    De cada morte
    que anda a viver comigo, a minha vida,
    de cada cicatriz,
    eu fiz
    nem tristeza, nem dor, nem nostalgia
    mas heróica alegria.

    Alegria sem causa, alegria animal
    que nenhum mal
    pode vencer.
    Doido prazer
    de respirar!
    Volúpia de encontrar
    a terra honesta sob os pés descalços.

    Prazer de abandonar os gestos falsos,
    prazer de regressar,
    de respirar
    honestamente e sem caprichos,
    como as ervas e os bichos.
    Alegria voluptuosa de trincar
    frutos e de cheirar rosas.

    Alegria brutal e primitiva
    de estar viva,
    feliz ou infeliz
    mas bem presa à raíz.

    Volúpia de sentir na minha mão,
    a côdea do meu pão.
    Volúpia de sentir-me ágil e forte
    e de saber enfim que só a morte
    é triste e sem remédio.
    Prazer de renegar e de destruir
    o tédio,

    Esse estranho cilício,
    e de entregar-me à vida como a
    um vício.

    Alegria!
    Alegria!
    Volúpia de sentir-me em cada dia
    mais cansada, mais triste, mais dorida
    mas cada vez mais agarrada à Vida!

    Fernanda de Castro, in "D'Aquém e D'Além Alma"

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  2. Obrigada Beijinhos
    É o contraponto ao Cansaço e bem postado.
    ;-)

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  3. também por cá há cansaço...
    íssimo, íssimo, íssimo...
    bj!

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  4. Como eu compreendo isso......
    Bjs

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